sábado, 25 de setembro de 2021

Museus do século XIX e o confisco de bens culturais como meio de constituição de acervo

 


A partir da Revolução Francesa, em fins do século XVIII, os museus passaram a se constituir enquanto espaços públicos de exposição de acervos e coleções. E desde então passou também a ficar evidente a disputa que existe entre quais são os objetos musealizados - preservados/expostos - e quais os objetos que estarão ausentes dos museus, gerando um processo de apagamento da memória.
No que diz respeito ao pós-Revolução Francesa, muitos bens confiscados da nobreza e clero passaram a fazer parte de exposições com o intuito de servir à instrução pública.
Ao contrario dos colecionismos do Antigo Regime, no qual se destacavam o acúmulo no que ficaram conhecidos os "gabinetes de curiosidades",  o contexto do pós-Revolução Francesa e da visão iluminista, começam a ser estabelecidos critérios de aquisição de bens, metodologias de exposição e também normas de conservação.  O ponto de destaque é a fundação do Museu do Louvre em 1793. 

(BLOM, Philipp. Ter e manter: uma história íntima de colecionadores e coleções. Rio de Janeiro: Record, 2003.)
A partir do Império de Napoleão, as conquistas territoriais estabelecidas pelo exército francês foram meios de confisco de obras de arte e coleções valiosas de países vencidos, sob justificativa de que a França como país da liberdade, era o lugar adequado para guardar e conservar os patrimônios. 
Nas últimas décadas têm crescido um movimento de países que reivindicam a repatriação dos bens culturais que foram roubados ao longo dos séculos de conquistas e colonialismos europeus ao redor do mundo. 

"Redescoberta: 500 anos ou mais, realizada em São Paulo. Na ocasião, foi trazido do Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhagen, um manto de penas vermelhas que pertenceu aos Tupinambá. Descendentes daquele povo, os Tupinambá de Olivença vivem no município de Ilhéus, na Bahia, e, ao tomarem conhecimento do artefato, reivindicaram sua permanência no Brasil. A demanda, no entanto, não teve sucesso. “Até meados do século XVIII, os Tupinambá se dividiam em diversos grupos espalhados por toda costa brasileira, do Pará a São Paulo, e mais de um grupo se considera seu descendente. Se o pedido de repatriação dos Tupinambá de Olivença fosse acolhido, muito provavelmente surgiriam disputas em torno do manto”, analisa Christofoletti. O historiador indaga se, nesse caso, o mais adequado não teria sido o Estado brasileiro incumbir-se da solicitação, responsabilizando-se pela guarda do objeto em um de seus museus. Criado em 1819, o Museu Nacional da Dinamarca teria recebido a capa de Mauricio de Nassau (1604-1679), chefe da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais em território brasileiro. Christofoletti explica que, no total, existem seis mantos tupinambás remanescentes conhecidos pelos historiadores. Todos estão fora do país e integram acervos de museus europeus." (QUEIROZ, Christina. Possibilidade de repatriação de bens culturais mobiliza debate sobre manejo de coleções formadas a partir de legado colonial. In: https://www.institutobuzios.org.br/repatriacao-de-bens-culturais-o-debate-sobre-colecoes-formadas-a-partir-de-legado-colonial/ )

"Das peças indígenas a fósseis: os itens culturais brasileiros que estão ou correm risco de ir parar no exterior" https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42405892 
Foto: Niels Erik Jehrbo/Museu Nacional da Dinamarca




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