terça-feira, 21 de abril de 2020
O horizonte mais longe que eu vejo
Eu preciso baixar os dois vidros da janela da sala e subir numa cadeira. E ficar na ponta dos pés para enxergar o horizonte mais longe que eu vejo: uma árvore que fica provavelmente na rua da outra quadra - depois do bloco em frente ao meu apartamento, depois da rua aqui em frente, depois dos prédios da outra quadra.
Eu nunca tinha reparado o quanto poder enxergar distante era essencial pra sanidade emocional, antes de vir morar em Porto Alegre. Em cidades do interior é tudo tão mais amplo... a vista vai longe de forma tão natural que já tá dentro das existências todas.
Em Porto Alegre primeiro morei em uma casa cujos horizontes eram as paredes praticamente grudadas das casas ao redor. Tijolo salpicado. Mas era casa e tinha pátio. pequeno, mas pátio. e plantas.
Depois me mudei pra um pequeno apartamento de 1 quarto. Mas de último andar e com vista ampla de horizonte. Eu costumava dizer que era um privilégio ter um pôr do sol de 180 graus, da janela.
Depois me mudei pra cá, apartamento maior, mais um quarto, mas de fundos, um bloco de cada lado. só vejo paredes e outros apartamentos, outras vidas. uma nesga de céu.
Nesses dias quando me sinto muito sufocada, subo na cadeira, fico na ponta dos pés, aperto os olhos pra enxergar mais longe. O dia que descobri essa estratégia, me deu uma alegria. Cada dia que olho o horizonte mais longe que eu vejo, tem uma mistura de tranquilidade em observar a árvore e as diferentes tonalidades de céu; uma certa tristeza de pensar que esse é o único horizonte que me cabe nesses dias de angústia. E uma certeza cada vez maior de que se sairmos dessa, uma forma de vida que gostaria que construíssemos seria tornar acessível que as pessoas possam existir em lugares com pátios e horizontes longínquos.
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