quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Os Museus de História e a Escrita do Passado Brasileiro - Museu Histórico Nacional

 




O livro é o resultado da pesquisa de Regina Abreu, na qual são analisados os processos culturais e simbólicos envolvidos na composição das elites políticas do Brasil no período da Primeira República. A pesquisa se debruça para compreender os processos envolvidos em uma doação de objetos feita ao Museu Histórico Nacional, pela viúva de Miguel Calmon du Pin e Almeida - Alice Porciúncula Calmon du Pin e Almeida, em 1936.

Gustavo Barroso, então diretor do Museu Histórico Nacional, teve papel decisivo na difusão de um modelo de História baseado na crença dos méritos de grandes personagens.

Miguel Calmon - vida pública inicia em 1892, como Secretário de Viação e Obras Públicas do Estado da Bahia; por duas vezes foi ministro de Estado; Deputado Federal e Senador. Com a Revolução de 30, Miguel Calmon perdeu seu mandato, distanciou-se da política. Faleceu em 1935. Alice da Porciúncula Calmon du Pin e Almeida - de "tradicional família gaúcha", a esposa mulher de homem público; "senhora de rara distinção e bondade, dotada de elevado espírito e exemplar formação intelectual"

Houve uma troca de cartas entre Alice Porciúncula e o diretor do Museu Gustavo Barroso, sobre as intenções de doação por parte da viúva e o interesse do Museu em receber os objetos. Processo é mediado por Pedro Calmon, historiador no Museu Histórico Nacional e sobrinho de Miguel Calmon.

A reciprocidade constituía regra básica - modus operandi característico da República Oligárquica. No Museu, sob gerência de Gustavo Barroso, a memória de Calmon seria consagrada na construção histórica da nacionalidade; Em retribuiçäo, Alice da Porciúncula doaria objetos de valor intrínseco — como as jóias, por exemplo — e de valor histórico, com objetos que figuraram acontecimentos importantes, imbuídos de valores simbólicos (prestígio e poder)

Alice Porciúncula teve papel fundamental na escolha dos objetos doados, que forneceriam uma narrativa sobre Miguel Calmon “homem público” 

A Construção do Homem Público - Imortal

O homem modelo construído a partir de um discurso de verdade, ou uma “narrativa-verdade”. Esse homem público é identificado com um “bem maior”, a pátria. Foi feita uma construção narrativa expositiva partindo da evocação da trajetória familiar e educacional dos Calmon para, por fim, relatar seus empreendimentos na construção da nação.

Conciliar a formação e atuação técnico-científica com a trajetória oligárquica/política da família. A figura de Calmon é atrelada a ideia de civilização e progresso, por sua racionalidade e qualidades técnicas. Calmon traz a união de dois aspectos essenciais: o “berço”, que o liga às elites oligárquicas, ao passado glorioso e à tradição, e a formação técnico-científica que o liga à modernidade. O privado encontra-se subordinado ao público no processo de imortalização do sujeito.

CONTANDO UMA HISTÓRIA DO BRASIL

A reconstrução do passado feita pelo Museu Histórico Nacional priorizava a atuação de um Estado iluminado, esclarecido e civilizador. 

Para Gustavo Barroso o Museu contribuia para o desenvolvimento da cultura do país, trazendo o jovem e a criança para o museu segundo o pressuposto de ¨modernas teorias¨ de estudiosos e estrangeiros. 

O passado, por meio dos objetos ensinava sobre o presente visando a  consciência patriótica. O Museu era auxiliar do Estado Nacional em seu objetivo de transformar o conjunto de habitantes de um território em cidadãos. 

QUE PAÍS É ESTE? 

A construção da nação brasileira, na perspectiva de Barroso, ancorava-se no culto às tradições, na ênfase na relação de continuidade do Brasil com Portugal. O papel da civilização portuguesa era o que assegurava em parte a construção da nação brasileira. Sob essa perspectiva a nação é uma construção do Estado e da Coroa, com importantes papéis desempenhados pela nobreza e pelo  Exército. 

ABREU, Regina.  A fabricação do imortal: memória, história e estratégias de  consagração no Brasil. Rio de Janeiro: Lapa/Rocco, 1996.

Museus Regionais - Museu Paranaense – Século XX (Seminários)

    Museu do Paraná foi primeiro museu da província do Paraná e terceiro museu público do Brasil, sua fundação se deu em um contexto histórico dado pela emancipação da Quinta Comarca da Província de São Paulo, em 1853 - afirmação de uma identidade paranaense (necessidade de se diferenciar de SP; disputa de território/limites com SC).

25/09/1876 – foi inaugurado o Museu Paranaense, como instituição particular - Agostinho Ermelino de Leão e José Cândido da Silva Murici assumiram sua direção sem nenhuma remuneração. 

1892 - ato 393 - Museu Paranaense pertence à Província do Paraná;
primeiro regulamento; prédio do governo. Ermelino Leão (diretor. 

    Ao longo da sua história foi instalado em 6 locais diferentes, em 2002 ganhou sede própria (antigo palácio São Francisco, sede do Governo do PR entre 1938-54).

O Museu Paranaense está diretamente ligado ao movimento PARANISTA que se empenhou na construção de uma identidade para o Paraná. 

O discurso paranista enfatizava:

riquezas naturais, como o clima ameno e o solo fértil para o plantio de muitos produtos, a grande quantidade de madeira e de campos, além das características do povo paranaense, como a disposição para o trabalho

Gestão de ROMÁRIO MARTINS (1874 a 1948)

1902 – Romário Martins (27 anos) foi nomeado para o cargo de Diretor do Museu Paranaense, permanecendo 26 anos na direção até 1928. Sua permanência demonstra prestígio e a influência, passou por diversas
administrações do Estado do Paraná.

Como diretor, procurou dar um caráter científico para o museu:
- classificação dos mostruários museológicos, auxiliado por pessoas
especializadas, como engenheiros de minas; catalogação das coleções de paleontologia e arqueologia, que constituíram o primeiro acervo do museu.
- Como redator-chefe do Jornal A República, frequentemente publicava matérias a respeito do Museu.

Como deputado, Romário Martins: 
- elaborou leis para a proteção da flora e da fauna - Paraná o primeiro estado a aprovar um código florestal no Brasil, em 1907;

Romário Martins escrevia artigos sobre a sociedade indígena. Participou da fundação em 1902, uma Associação Etnográfica de Proteção dos Índios, cujas propostas eram “estudos científicos a respeito dos silvícolas paranaenses e sua incorporação ao nosso meio”.
- Propôs a lei que reservou para os índios a propriedade perpétua de terras em Palmas, Guarapuava, Tibagi e Rio Negro. Como deputado costumava ajudar os índios, encaminhando seus pedidos de auxílios ou problemas de terras aos órgãos competentes do governo.

O Museu Paranaense e as exposições: espetáculos da
identidade regional

As Exposições Nacionais e Universais - serviam para relações comerciais, difusão de políticas e estabelecimento de padrões civilizatórios de acordo com as ideologias do Imperialismo e a dominação e exploração de territórios coloniais.

- Exposições no Brasil - comissões provinciais coletavam produtos em suas regiões, preparavam e selecionavam o que faria parte das exposições nacional e posteriormente universais.

Participação do Brasil:

“ser civilizado” era estar o mais de acordo possível com esses países, centros da “civilização”, ou com os Estados Unidos, considerado um modelo de país jovem que acompanhava este ritmo acelerado do progresso.

Eram formadas comissões para a organização de Exposições como foi o caso da Exposição do Cinquentenário da Província do Paraná, em 1903; e das Exposições Preparatórias, como foi o caso da Exposição Nacional de 1908, em homenagem ao Centenário da Abertura dos Portos do Brasil às Nações Amigas” 

A atuação do Museu Paranaense e de Romário Martins como diretor esteve fortemente vinculada à construção da identidade regional do Estado. 

- Criação de símbolos, de mitos e de discursos que exaltassem as
especificidades da região. O Museu se constituiu em local capaz de auxiliar na construção do imaginário da região, por reunirem e preservarem símbolos e signos que facilitavam a identificação de uma comunidade. 



CARNEIRO, Cintia Braga. O Museu Paranaense e Romário Martins: a busca de uma identidade para o Paraná. Curitiba: SAMP, 2013.


http://www.museuparanaense.pr.gov.br/Pagina/Conteudo-Virtual

Museus Brasileiros do Século XIX - Museu Paranese Emílio Goeldi

 


fachada atual do Museu Paraense Emílio Goeldi


O Museu Paraense foi criado no Período Imperial (1866), com participação de Domingos Soares Ferreira Penna, então Secretário de Governo.

No ano de 1871 o Museu é absorvido pelo Governo Provincial do estado do Pará. Nesse período existe uma forte vinculação com o Museu Nacional do Rio de Janeiro, através de expedições de pesquisas que realizam na região amazônica. 

No período que engloba a transição do Império para a República, o estado do Pará passou por uma Reforma Educacional, algumas instituições foram agregadas a esse processo, sendo conferidas a elas um papel político e pedagógico com objetivo de 'reformar o povo'. Este é o caso do Museu Paranaense.  

José Veríssimo Dias de Mattos foi nomeado como Diretor de Instrução Pública em 1890, e vai retomar o projeto de seu amigo pessoal Ferreira Penna, falecido em 1888. 

Esse projeto era valorizar o Museu Paraense como instituição cultural vinculada ao novo contexto republicano.


  EMÍLIO GOELDI (1859 - 1917)

- zoólogo suíço, com pesquisa em genealogia e anatomia comparada de espécies.

- Em 1884, a convite do diretor do Museu nacional do RJ, assumiu cargo na seção zoológica daquela instituição, realizando pesquisas e publicando trabalhos, onde permaneceu até 1890. 

- A convite do governo do estado do Pará, foi contratado para promover uma reformulação no Museu Paraense. 

- Goeldi recebeu apoio para desenvolver o museu como instituição científica com relativa autonomia e estabilidade e construindo uma projeção nacional. 

- o projeto de Goeldi era reunir dados sobre fauna para a publicação de uma obra sobre "Fauna do Brasil"

- Ao longo da gestão de Goeldi, fica evidente a diversidade dos temas pesquisados e da produção científica realizada pelo Museu Paraense. 

- Há uma disputa intelectual entre Goeldi e Hermann von Ihering, diretor do Museu Paulista,  

- O Museu Paraense teve um envolvimento com a história regional em função de demandas estatais, principalmente no que se refere à disputa entre Brasil e França por parte do território da Guiana. 

- Nesse contexto, Goeldi teve uma ação diplomática e através da realização de pesquisas sobre a região agregaram valor à causa brasileira. 

 - A partir de outras demandas estatais Goeldi também realizou pesquisas sobre entomologia médica e a etiologia da febre amarela. 

- A gestão de Goeldi está identificada com as pesquisas científicas vinculadas às questões regionais e nacionais, como definições de fronteiras e saúde pública. 




Referência: 

SANJAD, Nelson. A coruja de minerva: o Museu Paraense entre o Império e a República. Brasília: IBRAM, 2010.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Teorias Racistas no século XIX e a constituição de acervos museológicos

 


As teorias científicas que desenvolveram o chamado "evolucionismo social" no século 19, produziram efeitos e embasam o racismo até hoje. Mesmo que o próprio meio científico tenha revisto tais formulações e desacreditado das noções de hierarquias raciais, a estrutura social se consolidou racista pela prática cotidiana.

Basicamente a teoria do EVOLUCIONISMO SOCIAL classificava as sociedades em três etapas evolutivas:

1ª) bárbara; 2ª) primitiva; 3ª) civilizada.

Os europeus (que criaram essa teoria) se consideravam integrantes da 3ª etapa (civilizada) e classificavam os asiáticos como primitivos e os africanos como bárbaros. Portanto, restaria ao colonizador europeu a “missão civilizatória”, através da qual asiáticos e africanos tinham de ser dominados, para que “aprendessem” a cultura europeia e desta forma se tornariam uma sociedade “evoluída e civilizada” como a europeia.

 

A teoria do DARWINISMO SOCIAL também legitimou o discurso ideológico europeu para dominar outros continentes. Os teóricos racistas adeptos do darwinismo social se utilizaram da teoria da evolução das espécies (Darwin), para tentar explicar as desigualdades sociais existentes. Desta forma a teoria original da Evolução das Espécies de Darwin, de que as espécies de seres vivos que sobrevivem são as que melhor se adaptam ao meio ambiente foi “traduzida” para aplicar à sociedade com o significado de que na luta pela vida somente as nações e as raças mais fortes e capazes sobreviveriam. Obviamente os europeus, que ressignificaram a teoria de Darwin, consideravam outros povos inferiores.

 

A partir de então, os europeus difundiram a ideia de que o imperialismo, ou neocolonialismo, seria uma missão civilizatória de uma raça superior branca europeia que levaria a civilização (tecnologia, formas de governo, religião cristã, ciência) para outros lugares "selvagens". Segundo o discurso ideológico dessas teorias raciais, o europeu era o modelo ideal/padrão de sociedade, no qual as outras sociedades deveriam se espelhar. Para a África e a Ásia conseguirem evoluir suas sociedades para a etapa civilizatória, seria imprescindível ter o contato com a civilização europeia, aceitando a dominação.

Hoje sabemos que o evolucionismo social e o darwinismo social não possuem nenhum embasamento ou legitimidade científica, mas no contexto histórico do século XIX foram ativamente utilizados para legitimar o imperialismo, ou seja, a submissão, o domínio e a exploração de continentes inteiros.


No esteio destas vertentes, outras teorias com vieses racistas foram se apresentando e criando corpo. 

É o caso da Antropologia Criminal e da Frenologia que a partir de estudos biológicos e morfológicos procuraram demonstrar que havia uma correspondência física ao ato criminoso. 

Cesar Lombroso, médico e psiquiatra italiano, publicou em 1876 o livro "Tratado Antropológico Experimental do Homem Delinquente", pesquisou detentos e passou a identificar padrões que evidenciassem que criminosos possuem características específicas que os distinguem dos demais, sendo considerados subtipos humanos, selvagens. 

Estes estudos foram muito utilizados nas áreas das Ciências Criminais e estiveram presentes no Brasil como base teórica em faculdades de Biologia, Medicina e Direito, por exemplo. 


Para Lombroso, os delitos e crimes possuem causas biológicas e portanto, era uma característica essencialista, portanto o "criminoso nato", já nascia com essa condição. Ao identificar tais características e padrões, seria possível segregar e isolar essas pessoas como forma de evitar e combater a criminalidade. 


"No que tangia à fisionomia do homem criminoso, afirmava que tais indivíduos apresentavam mandíbulas volumosas, assimetria facial, orelhas desiguais, falta de barba nos homens, pele, olhos e cabelos escuros." (https://canalcienciascriminais.jusbrasil.com.br/artigos/625021486/cesare-lombroso-e-a-teoria-do-criminoso-nato


Tornou-se comum que os Museus ao longo do século XIX e boa parte do século XX organizassem exposições e constituíssem acervos que representassem a diferenciação entre as raças. Era comum que existissem moldes de corpo, busto e cabeça evidenciando características de cada uma das raças Branca, Amarela, Negra, Vermelha - sendo o caso de alguns museus escolares. 







Imagens acima retiradas do artigo: 


PAZ, Felipe Rodrigo Contri; POSSAMAI, Zita Rosane. Bustos Raciais: Imagens-artefatos sobre o outro (1908- 1945). Revista Linhas. Florianópolis, v. 22, n. 48,p. 172-193, jan./abr. 2021.




Matéria atualizando a discussão sobre o racismo entranhado no Judiciário brasileiro: 

sábado, 25 de setembro de 2021

Os Museus brasileiros do Século XIX - O Museu Nacional

 

Museu Nacional - 




Criado em 1818, inicialmente funcionou na região central da cidade do RJ (Campo de Santana); a partir da República é transferido para o prédio na Quinta da Boa Vista, Bairro de São Cristóvão, local que foi residência da Família Real desde a chegada da Família Real, em 1808. 

A ênfase nas Ciências Naturais esteve presente desde a fundação do Museu e se insere dentro do modelo dos museus europeus do século XIX ("nações civilizadas"): museu universal, de caráter enciclopédico com coleções que representassem diferentes lugares do mundo, com especificidades do território nacional. 

Para isso, a partir de meados do século XIX é iniciado um processo de explorações científicas das regiões brasileiras com objetivo de identificar recursos de aproveitamento comercial e industrial nas áreas da mineração e agricultura. A partir de coletas realizadas em campo a partir desse período dá-se início a acervos e pesquisas relacionadas à Paleontologia, Antropologia, Etnologia. 

O principal viés abordado nas pesquisas, formação de acervo e exposições realizadas esteve em consonância com as perspectivas teóricas permeadas pelo evolucionismo, positivismo e naturalismo.

Nas últimas décadas do Período Imperial o Museu se volta para uma dimensão pedagógica com a publicação de arquivos e exposição com ênfase na Antropologia. 

Com o fim do Império, o Museu Nacional passa um período de estagnação nas primeiras décadas do século XX até que em 1946 é incorporado à UFRJ e passa a fazer parte da estrutura acadêmica e ao longo do século XX e primeiras décadas do XXI agrega departamentos de diversas áreas científicas e sua dimensão de ensino assim como o desenvolvimento de pesquisas, laboratórios e acervos.

Outros importantes Museus voltados às Ciências Naturais que surgiram no Brasil na segunda metade do século XIX: 

- 1876 - Museu Paraense Emílio Goeldi, especializado em zoologia e botânica da região amazônica; 

- 1894 - Museu Paulista, formado a partir da coleção de zoologia de Hermann von Ihering; só a partir da década de 1930, será transformado em um Museu Histórico.

Referência: 

LOPES, Maria Margaret. O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus e as ciências naturais no século XIX. São Paulo: Hucitec, 2005

página do Museu Nacional: https://www.museunacional.ufrj.br/ 


NOTÍCIAS ATUAIS E POLÊMICAS SOBRE O MUSEU NACIONAL: 


Governo quer transformar Museu Nacional em Palácio Imperial

https://www.metropoles.com/brasil/governo-quer-transformar-museu-nacional-em-palacio-imperial 


Nota sobre a transformação do Museu Nacional em centro dedicado à família imperial (Forum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro

https://forumpatrimoniobr.wordpress.com/2021/03/27/nota-sobre-a-transformacao-do-museu-nacional-em-centro-dedicado-a-familia-imperial/ 


Museus do século XIX e o confisco de bens culturais como meio de constituição de acervo

 


A partir da Revolução Francesa, em fins do século XVIII, os museus passaram a se constituir enquanto espaços públicos de exposição de acervos e coleções. E desde então passou também a ficar evidente a disputa que existe entre quais são os objetos musealizados - preservados/expostos - e quais os objetos que estarão ausentes dos museus, gerando um processo de apagamento da memória.
No que diz respeito ao pós-Revolução Francesa, muitos bens confiscados da nobreza e clero passaram a fazer parte de exposições com o intuito de servir à instrução pública.
Ao contrario dos colecionismos do Antigo Regime, no qual se destacavam o acúmulo no que ficaram conhecidos os "gabinetes de curiosidades",  o contexto do pós-Revolução Francesa e da visão iluminista, começam a ser estabelecidos critérios de aquisição de bens, metodologias de exposição e também normas de conservação.  O ponto de destaque é a fundação do Museu do Louvre em 1793. 

(BLOM, Philipp. Ter e manter: uma história íntima de colecionadores e coleções. Rio de Janeiro: Record, 2003.)
A partir do Império de Napoleão, as conquistas territoriais estabelecidas pelo exército francês foram meios de confisco de obras de arte e coleções valiosas de países vencidos, sob justificativa de que a França como país da liberdade, era o lugar adequado para guardar e conservar os patrimônios. 
Nas últimas décadas têm crescido um movimento de países que reivindicam a repatriação dos bens culturais que foram roubados ao longo dos séculos de conquistas e colonialismos europeus ao redor do mundo. 

"Redescoberta: 500 anos ou mais, realizada em São Paulo. Na ocasião, foi trazido do Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhagen, um manto de penas vermelhas que pertenceu aos Tupinambá. Descendentes daquele povo, os Tupinambá de Olivença vivem no município de Ilhéus, na Bahia, e, ao tomarem conhecimento do artefato, reivindicaram sua permanência no Brasil. A demanda, no entanto, não teve sucesso. “Até meados do século XVIII, os Tupinambá se dividiam em diversos grupos espalhados por toda costa brasileira, do Pará a São Paulo, e mais de um grupo se considera seu descendente. Se o pedido de repatriação dos Tupinambá de Olivença fosse acolhido, muito provavelmente surgiriam disputas em torno do manto”, analisa Christofoletti. O historiador indaga se, nesse caso, o mais adequado não teria sido o Estado brasileiro incumbir-se da solicitação, responsabilizando-se pela guarda do objeto em um de seus museus. Criado em 1819, o Museu Nacional da Dinamarca teria recebido a capa de Mauricio de Nassau (1604-1679), chefe da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais em território brasileiro. Christofoletti explica que, no total, existem seis mantos tupinambás remanescentes conhecidos pelos historiadores. Todos estão fora do país e integram acervos de museus europeus." (QUEIROZ, Christina. Possibilidade de repatriação de bens culturais mobiliza debate sobre manejo de coleções formadas a partir de legado colonial. In: https://www.institutobuzios.org.br/repatriacao-de-bens-culturais-o-debate-sobre-colecoes-formadas-a-partir-de-legado-colonial/ )

"Das peças indígenas a fósseis: os itens culturais brasileiros que estão ou correm risco de ir parar no exterior" https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42405892 
Foto: Niels Erik Jehrbo/Museu Nacional da Dinamarca




domingo, 19 de setembro de 2021

Ainda sobre Coleções e objetos semióforos (continuum)

Às vezes eu me pego tendo lembranças muito específicas e muito vivas da minha infância. De detalhes que ficaram em algum lugar da minha memória e ressurgem não sei bem como... mas acho que tem algo a ver com algum sentido/sensação que ficou gravada afetivamente.

Essa semana tive disso.

Relembrei da sensação de passar a mão em uma cortina de fios de conta de de plástico. Não sei de que casa era. Suponho que de uma avó, de alguma tia ou vizinha. Era um tipo de cortina usado em portas, para separar a cozinha da sala. alguma decoração, de casa de vó nos anos 80, suponho... tenho uma vaga lembrança de que era verde clarinho ou cor de rosa (hehe). e as contas/miçangas dispostas nos fios de cima abaixo formavam na cortina espécie de figura geométrica. a cortina ficava amarrada para não atrapalhar a passagem. mas quando ficava solta era bom de passar por ela e ser envolvida pelos fios.

eu fico com essa lembrança aleatória e com uma ânsia de preencher as informações que faltam: "na casa de quem?, mãe, pai, vcs lembram disso?"

E nessa lida de procurar imagens na internet de coisas dos anos 80 que me ajudassem a preencher as lacunas da memória, encontrei azulejos que também fizeram parte da minha infância.

O "Flor" era do banheiro da nossa casa em que nasceu a minha irmã. A casa ficava na rua do Comércio ao lado do Armazém do Délico, onde eu estacionava o meu cavalinho de pau e ia acompanhar alguém de casa que ia comprar alguma coisa e um sorvete seco pra mim.


O “Ana Rosa” era do banheiro da casa da minha tia. É uma lembrança muito viva e fazia muito tempo que precisava encontrar esse azulejo, para revê-lo. Não lembro de outra coisa, só da parede com esse azulejo. E de que a casa dela ficava para lá da Sogi, era abaixo do nível da rua e tinha que descer escadas para entrar na casa.



Tento puxar essas lembranças nas outras pessoas da família, meu pai lembra vagamente... de resto, geralmente fico com uma leve sensação de sina de 'Funes', a memoriosa... não sei explicar porque algumas lembranças garram em mim e não nos outros...
Vou deixar a página dos azulejos aqui... muitos são lindíssimos... todos invariavelmente trazem de volta os banheiros e cozinhas das casas dos anos 70/80. http://www.azulejosantigos.com.br/.../azulejos.../15x15-cm/1
e faço um apelo que se alguém lembrar das cortinas, dê um salve, não me deixe só (não encontrei nada na internet e ninguém da minha família sabe do que eu to falando hehehe)

Os Museus de História e a Escrita do Passado Brasileiro - Museu Histórico Nacional

  O livro é o resultado da pesquisa de Regina Abreu, na qual são analisados os processos culturais e simbólicos envolvidos na composição das...