sábado, 14 de março de 2020

Museu 


Há pratos, mas falta apetite. 
Há alianças, mas o amor recíproco se foi 
há pelo menos trezentos anos. 

Há um leque — onde os rubores? 
Há espadas — onde a ira? 
E o alaúde nem ressoa na hora sombria. 

Por falta de eternidade 
juntaram dez mil velharias. 
Um bedel bolorento tira um doce cochilo, 
o bigode pendido sobre a vitrine. 

Metais, argila, pluma de pássaro
triunfam silenciosos no tempo. 
Só dá risadinhas a presilha da jovem risonha do Egito.

A coroa sobreviveu à cabeça. 
A mão perdeu para a luva. 
A bota direita derrotou a perna. 

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem. 
Minha competição com o vestido continua. 
E que teimosia a dele! 
E como ele adoraria sobreviver!


A poetisa polonesa Wisława Szymborska (Visuáva Chamborska),(1923-2012) foi ganhadora do Nobel de Literatura de 1996.

Em fins de 2016 conheci essa senhorinha que me impactou de uma forma absurda. 


Tem dois livros dela publicados no Brasil, pela Companhia das Letras:





E pesquisando agora sobre ela para encontrar alguma foto para postar aqui, achei esse link com alguns poemas dela 

"Toda vez que eu dou um passo o mudo sai do lugar"

"Toda vez que eu dou um passo o mudo sai do lugar" 


Me chamo Gabriela e estou começando o curso de Museologia na UFRGS. Esse blog está surgindo a partir da proposta feita pela professora Zita Possamai na disciplina de "História dos Museus e dos Processos Museológicos". 
Eu nunca havia feito um blog e ainda estou conhecendo essa ferramenta. Então estou entre a novidade e a estranheza da coisa. 
Vou aproveitar para contar algumas coisas sobre mim e de qual lugar eu parto para me inserir no mundo da Museologia. 







Minha primeira graduação é História (me formei em 2004), e sou professora de História na rede municipal de Sapucaia do Sul, desde 2007. Há 13 anos trabalho com turmas de 6º a 9º ano do Ensino Fundamental (pre-adolescentes ). 




(Milene é minha aluna de 8º ano e quer ser artista e professora de artes, fez esse desenho no primeiro dia de aula desse ano)


(Atividade de aula com alunos do 7º ano/2019, na EMEF José Plácido de Castro)


Mas comecei a ser professora há 15 anos. Minhas primeiras experiências docentes foram com 2 turmas de EJA/Fundamental do MST e em escolas itinerantes do movimento. Trabalhei por 2 anos como professora parceira junto ao MST e acredito fortemente que aprendi mais que ensinei. A partir dessa experiência fiz uma Pós-Graduação em Ensino de Ciências Humanas e Sociais em Escolas do Campo (Instituto Josué de Castro/UFSC). 



(fotos de duas místicas realizadas pelas turmas do MST)


Concomitantemente a essas vivências participei da equipe que organizou a construção do Museu Comunitário da Lomba do Pinheiro e Memorial da Família Remião. Eu costumo alterar a ordem do nome, que oficialmente é Memorial antes de ser Museu Comunitário. Isso ocorreu entre 2005 e 2006. Foi minha segunda experiência mais concreta com Museu e não faz parte de uma experiência totalmente agradável, mas trouxe diversas aprendizagens. 


A minha primeira relação com Museus remete a minha infância. Entre meus 6 e os 10 anos de idade, minha família morou em frente ao Museu Antropológico Diretor Pestana, https://www.facebook.com/MADPUNIJUI/ em Ijuí (cidade do noroeste do RS - sou de lá, fiz a graduação na UNIJUÍ e meus pais moram lá até hoje). Pois bem, a Universidade e o Museu eram uma espécie de extensão do pátio da minha casa e eu, meus irmãos e a gurizada da rua costumávamos brincar nesse espaço todo. Eu gostava de ir visitar o Museu e assinar o livro de visitas, achava isso algo muito importante. O item da exposição que mais me impressionava era uma urna funerária indígena. Gostava também quando tinha abertura de exposições. Eu e umas amigas da rua circulávamos pelas pessoas como se fôssemos personagens fazendo parte daquele evento. 


Meu irmão mais novo nasceu logo que nos mudamos pra essa casa e os primeiros anos dele foram ali. Ensinei ele a caminhar nesse pátio do Museu. Meus irmãos me chamavam de Dada ou Gá. Era comum que ele e minha irmã do meio ficassem na minha cola por tudo, mesmo que eu tentasse escapar... e já do outro lado da rua gritavam pra avisar meus pais "VOU 'CA' (com a) GÁ NO MUSEU".... frase que virou piada interna na família até hoje.... 



(foto atual do MADP, achada na internet)

(eu, meu pai Orlando, meu irmão caçula Matias, e um pedaço da minha irmã do meio Ana brincando na areia no estacionamento do MADP. A casa ao fundo é onde morávamos)

Durante a graduação, fui bolsista e precisei pesquisar matérias de jornais arquivados nesse Museu e me impressionou a riqueza de todo o acervo, principalmente as coleções de negativos fotográficos em vidro. Até hoje quando eu circulo por lá eu entro numa viagem no tempo e me impressiona me dar conta da minha relação com o espaço e como eu cabia em lugares por onde hoje em dia, não passaria meu corpo inteiro. 

Em março do ano passado concluí o Mestrado em Ensino de História pelo Programa PROFHISTÓRIA/UFRGS. A dissertação que produzi, foi orientada pela Professora Natalia Pietra Méndez - "Gênero e ensino de história: a experiência das aulas para pensar a construção do currículo" e está disponível no LUME.

(https://lume.ufrgs.br/handle/10183/199640 )   

Bueno, e por que to começando uma nova graduação? 

Eu construí uma trajetória toda ligada a ser professora. E adoro ser professora. Mas não quero mais ser professora pelo resto da minha vida profissional... não vou estender os detalhes, pra não me alongar... mas a falta de condições de trabalho, o contexto atual, a remuneração indigna, o desgaste emocional, a carga de trabalho extra absurdamente absurda foi transformando a gana em sofrimento. 2019 foi um ano bastante difícil de crise de identidade... um acúmulo de desgastes de alguns anos que evidenciou a necessidade de alterar as coisas. Ainda estou trabalhando internamente a ideia de fechar esse ciclo como professora (até porque sigo sendo professora enquanto procuro reconstruir esse caminho profissional). Foi um tanto de supetão que no último dia de inscrição no vestibular, fiz a inscrição, depois prestei as provas e agora estou aqui, novamente como caloura, tentando construir novas perspectivas e novos caminhos. Apesar de ser uma carga tripla, bastante pesada: trabalho nas escolas, aulas na graduação e filho pra criar (Pedro é meu companheiro há 13 anos), me sinto em movimento e com muitas expectativas. Estudar é sempre muito bom! Espero conseguir dar conta de tudo. 


(Pedro pequeno)


 (Pedro maior que eu)



Os Museus de História e a Escrita do Passado Brasileiro - Museu Histórico Nacional

  O livro é o resultado da pesquisa de Regina Abreu, na qual são analisados os processos culturais e simbólicos envolvidos na composição das...